Os pássaros e a criança

Posted by on jul 19, 2013 in Blog, Contos

A moça que trabalha lá em casa não é de muitos dizeres, o que é desculpável vindo de alguém com sua história de vida. Seu silêncio passivo soa como uma auto defesa involuntária e inútil de uma presa aguardando a compaixão de um predador indeciso. Com muitos anos de casa ela adquiriu admirável personalidade no jeito discreto de tratar e um papel fundamental no cuidado de dois homens residentes, pai e filho.
Meu sentimento com relação a essa moça é praticamente o mesmo que reservo aos meus familiares, pudera, já se vão mais de quinze anos de convivência. Essa moça tem lá os seus cinquenta anos, sofre com dores nas costas, e veio do nordeste sem perspectiva nenhuma e com filho nos braços. Pode-se dizer que é uma vencedora, pois leva uma vida digna, mesmo ainda não tendo conseguido comprar a casa própria. Casou o filho, e cuida de outros parentes, Em quinze anos não me recordo de nenhum atraso ou falta. Ela acorda antes das seis.
A cumplicidade entre nossos problemas e conquistas é grande, mesmo que inconscientemente mantenhamos a distância que é de se esperar entre empregado e filho de empregador. Como a vez em que ela caiu num trote de sequestro por telefone. Acreditou que era a irmã sendo sequestrada do outro lado da linha, literalmente caiu no chão em prantos. Liguei na hora para um policial amigo meu e ele explicou que é um golpe recorrente aplicado por pessoas que muitas vezes estão dentro da prisão. Até ela acreditar nisso e desligar o telefone foi um transtorno psicológico grande para nós dois. Ou também da vez que eu tive desidratação total e desmaiei nu na frente dela, depois de quase não conseguir abrir a porta do banheiro.
Quando acontecem coisas boas também dividimos a alegria, sempre que alguém da família aparece na TV ela assiste conosco, ou quando alguém lança um CD ou escreve um livro, fazemos questão de dividir tudo isso. Quando volto de alguma viagem percebo que sinto saudades dela também, afinal o bem estar que ela proporciona há tanto tempo se tornou fundamental.
Certo dia ela olhava algo pela janela da sala. E perguntou se eu já tinha reparado que no prédio da frente havia plantas onde os passarinhos pousavam e também bebiam água de um bebedor. Eu disse que não tinha reparado ainda, e a partir dali comecei também acompanhar todo dia um pouco esses episódios, normalmente matutinos. Fiquei imaginando a importância desses detalhes que passam despercebidos, e que não dependem de instrução nenhuma para causar encantamento. Não me recordo de outra vez que ela tenha me chamado atenção para algo tão poético.

Dias depois também meu pai me chamou a atenção que no mesmo andar dos pássaros nasceu um bebê, e o pai, ou o avô, sempre ficava segurando-o perto da janela. Passei também a acompanhar o crescimento da criança pela janela da sala. E foi assim durante algum tempo, os pássaros e a criança.

Mas minha cidade está em vias de crescimento desenfreado, acompanhando o bom momento do país e da descoberta de petróleo e gás nas profundezas do solo que nasci. Com isso uma grande parede de cimento frio foi erguida entre um prédio e outro, impedindo-nos de contemplar a janela lateral que nos fazia um afago na alma.
Está sendo construída uma escola de três andares do lado do prédio onde eu moro, o barulho da construção incomoda bastante. Em atitude positiva procuro pensar que entre a janela de onde moro com meu pai e a do bebê, das plantas e dos pássaros, haverá uma edificação escolar onde a vida também transcorrerá fluida e imprevisível, onde as crianças aprenderão muitas coisas que irão esquecer, mas que servirão de base para um dia conseguirem exprimir em palavras ou em arte emoções que não requerem nenhuma instrução para serem sentidas.