Mel

Posted by on jul 19, 2013 in Blog, Contos

Houve uma gota que nunca esqueci. Uma gota de saliva de um beijo apaixonado. Um pingo que brilhava mais forte, fruto de uma salivação não controlada.
Eu era uma criança da quinta série de um colégio pequeno, uma criança normal, queria brincar e esperava com ansiedade a hora do recreio e a da saída. Não que eu fosse um mau aluno, mas a relação com os colegas era (e quase sempre foi) mais interessantes do que as travadas em sala de aula.
Muito me despertava atenção a relação que os meninos mais velhos tinham com as garotas, a forma de cumprimentarem, a abordagem, as brincadeiras, um mundo que a mim parecia proibido e perigoso. Mais tarde descobriria que não estava totalmente errado.
Sempre há os que chamam mais a atenção de todos, cada um por sua peculiaridade. Mas na beleza e no trato com a vida havia particularmente um casal (não que fossem um casal, mas por ser um homem e uma mulher) que me despertava muito a atenção. Ele era moreno, e mais corpulento que os demais da turma, diziam que era campeão da modalidade esportiva que praticava e colecionava troféus.
Ela era, e ainda é, o sonho de qualquer homem. Loira, linda, esbelta e rosto de boneca. Aquele tipo de beleza incontestável, a que qualquer pessoa que se opusesse e empregasse o jargão “gosto não se discute” seria corretamente tachada de invejosa ou de contrariar por birra. Mais tarde, como era de se esperar, tornou-se atriz de sucesso.
Eu, sentado, absorto em meus pensamentos infantis, com a mochila nas costas, pronto para ir embora, pensando nos brinquedos que me esperavam em casa, vivendo, estando, já em modo de ação, como foram deixados quando da última vez brincados, um presente parado, uma história deixada de lado, pronta para continuar, vívida e vivida do jeito que o pensamento gerenciou os movimentos daqueles meus pertences no momento em questão.
A sede dele em dar aquele beijo de despedida nela foi tamanha que da boca dele escapuliu uma considerável gota de saliva que pousou em minha coxa direita, justo quando eu assistia de baixo, sentado com as pernas cruzadas aquelas duas cabeças tamparem a luz ao irem de encontro uma com a outra, e é engraçado como as coisas do amor se interpõem sobre às de criança aos poucos.

Lembro que a sensação pós-gotejo foi de um nojo que eu não deveria sentir, junto com um sentimento de recompensa, por estar ali naquele momento mágico e hoje vejo como um claro sinal. Um sinal do caminho que eu ainda iria percorrer, se mais ou menos que eles não importa, mas sinuosamente similar, de pecados, vaidades, medos e das maiores alegrias. De feitiços, magias e maus olhados. Do jeito que o ser humano tem, fez e se faz, capaz. De tudo. De ser feliz, de dar, e dar o melhor ou o pior de si. É a isso que aquele ínfimo instante me remete até hoje. O mel. O amor, independente da forma que fosse aquele. O querer. Estampado no que é quase oitenta por cento de nós, líquido. Ali, na minha perna, demorei a limpar, contemplei a gota, minha mente infantil já pressentia o que iria viver, a natureza do ser, de quereres.
Não sei quanto tempo fiquei ali, pensando, sozinho, no destino daquele eu infantil, ingênuo, naquele dia nublado de um branco bem claro, como se as nuvens já não suportassem mais a pressão da luz. Na saliva dele, da sede por ela, no casal mais bonito do colégio, que me mostrou muito mais do que as matérias da grade e muito mais do que as grades que nos pareciam, a nós alunos, as notas do boletim.
Não acho hoje insignificante nada do que se referiu à minha formação escolar, mas essas pequenas outras coisas me parecem muito mais significativas, pois eternizam memórias imprescindíveis da natureza nossa, de seres humanos. E a imprecisão de memórias, do que veio depois daquele momento, afirma a certeza da importância desta precisa lembrança que insiste agora em ser história. Esta. Da gota. Do amor. Do mel.
Do futuro pessoal amoroso de cada um dos três personagens não valem considerações. Vale, sim, a metáfora traçada e elaborada tantos anos depois, de uma lembrança, numa uma idade que julgam despida de saberes mais elevados, e que agora me coube narrar.