Gustavo – O conto

Posted by on jul 19, 2013 in Blog, Contos

Reconheci por completo o verdadeiro sentido dessa força que nos une e ao mesmo tempo nos afasta, mas mesmo assim faz-nos sempre querer tornarmo-nos especiais ou peculiares, pros outros e pra nós mesmos. É tão óbvio e parte da intuição que não conseguimos descrever, essa energia vital que existe no mundo, e faz reconhecermo-nos em nossos semelhantes.
Foi no banco de uma praça, de pernas cruzadas, num dia de outono, depois de ter lido as últimas notícias no impresso diário; divagava em pensamentos duvidosos e relutantes quanto ao curso do drama humano e quanto ao meu próprio; pensava nas muitas pessoas que passaram em minha vida, as mais importantes apareciam com o rosto conservado da adolescência, mesmo que hoje fossem velhas, se é que estavam vivas. Lembranças. Agradáveis até. Tive também muitos animais domésticos memoráveis, me espanta até hoje o afeto que eles podem nos proporcionar, e quanto à lealdade, são únicos . As pessoas menos importantes vieram depois em lembranças misturadas, rostos disformes de tempos que não consigo datar.
Conheci muita gente, primeiro devido à minha família, que era grande e festeira, e depois devido ao meu primeiro e único emprego de professor de biologia. Descobri como ganhar dinheiro muito cedo, e como gastar também. Ainda estava com a publicação em punho naquela tarde, quando sentou alguém ao meu lado no tal banco. Dei aquela rápida olhada para o lado direito, e imediatamente meus sentidos reconheceram um rosto conhecido. Percebi que para quem olhasse aquela cena de fora, naquela fração de segundo, assim como o dono da face que eu julgava conhecer e cruzou meu olhar no dito naco de momento, perceberia em minha expressão amuada uma pseudo-posse de um banco público por uso antecipado, e uma expressão de rispidez talvez digna de quem devotou grande parte da existência à busca desenfreada pelo saber, seguida por um desarmamento nos músculos faciais que deu espaço a uma expressão sem exageros de surpresa.
-Gustavo? – eu disse, agora na desvantagem da incerteza.
– Não, não. Respondeu o homem que não era o Gustavo sem aparentar ter-se importado com minha confusão.
E seguiu dizendo oportunamente se eu a propósito poderia emprestar-lhe o jornal que agora repousava em meu colo. Consenti e pedi desculpas por tê-lo confundido. Olhei para o lado e vi crianças dando pipocas para pombas e agora minhas mãos pareciam grandes e eu não encontrava lugar para colocá-las, o mesmo acontecia com meu olhar, que agora parecia algo sólido, como as mãos.
Enquanto o homem que não era o Gustavo lia as notícias da primeira página, com a expressão tranqüila típica das pessoas bem-resolvidas ou das ignorantes, relatei para ele a impressionante semelhança física que ele dividia com meu amigo de infância, o Gustavo, o qual não via à muito tempo. O mesmo bigodinho de espadachim e cabelos escuros no ombro e encaracolados, estilo D´artagnan. Eu estava pasmo com a possibilidade de haver duas pessoas tão parecidas, só que isso eu não disse, mas mesmo tentando disfarçar acho que ficou evidente pelo tom que me referi àquilo, isso supondo que ele não era um ignorante sem senso de exageros tonais.
Eu que nunca fui de falar muito, e nem de me impressionar com qualquer coisa, desacreditado da situação, insisti não satisfeito com um não sei o que:
-Acho que ele mudou para a Espanha…
O primeiro sinal de incômodo se deu sutilmente quando ele leu o título de uma matéria em voz alta: novas descobertas revelam ser possível o teletransporte de moléculas – como quem quisesse cessar uma conversa começando outra, ele olhou pra mim, mas sorriu forçosamente.
Desconcertado só pude dizer:
-É, eu vi isso, puxa! Onde vamos parar assim, não!? – olhei para o lado ainda perplexo com tamanha similitude arregalei os olhos, desvantagem que não sabia explicar o porquê ainda se apoderava de mim, do outro lado as crianças não alimentavam mais as pombas, e agora isso das moléculas.
Se essa máquina de transporte de moléculas já existisse, eu daria tudo pra ir onde estava o Gustavo e trazê-lo aqui, pra ele ver o irmão gêmeo dele. Um sorriso de canto se desenhou em meus lábios quando eu pensei que duas pessoas idênticas poderiam não querer dividir a mesmo período de existência, e no caso deles isso poderia ser resolvido num duelo espadachim. E mais um desses virava logo os três mosqueteiros. Quanta besteira pode pensar um senhor da minha idade. Achariam as crianças de hoje graça nisso?

Ficamos ali sentados, ele lendo, deixei que um pouco de silêncio acalmasse essa estranha situação. E isso me deu algum tempo para pensar melhor. Acabei por me sentir muito próximo dele, devido a tal semelhança. Senti que provavelmente de certa forma ele deveria sentir isso também. Comecei a ter lembranças de algumas situações que vivi junto com o Gustavo. Festas, Reuniões de amigos, nós dois tentando tocar violão, mesmo sem o menor talento para tal. Cheguei a pensar que se ele não era o Gustavo, deveríamos procurar o verdadeiro juntos, e ir a um programa de televisão para mostrar o milagre daquela coincidência genética ao mundo. Ou que ele era o Gustavo tentando me pregar uma peça depois de tantos anos. Se bem me lembro, ele tinha um humor muito peculiar, muita personalidade, e era afeito a esse tipo de brincadeiras esdrúxulas.

Quando ele levantou para partir, batia um vento que arrastava as folhas secas, a praça estava mais vazia. Com um movimento decidido, pôs o jornal ao meu lado e fechou um pouco mais o agasalho na altura do peito, se despediu com a ênfase das pessoas que não são particularmente grandes amigas e virou-se iniciando a caminhada que nos separaria de novo. Olhei para o jornal ao meu lado e depois para um homem já em pé e partindo. A parte de mim que queria a qualquer custo segurá-lo e tentar explicar aquilo que ele não conseguia ver e nem queria, hesitou tempo suficiente para que um novo transeunte se interpusesse entre nós e oportunamente tomasse o lugar que, agora vago, era do Gustavo. Reconheci por completo o verdadeiro sentido dessa força que nos une e ao mesmo tempo nos afasta, mas mesmo assim faz-nos sempre querer tornarmo-nos especiais ou peculiares, pros outros e(ou) pra nós mesmos. É tão óbvio e parte da intuição que não conseguimos descrever, essa energia vital que existe no mundo, e faz reconhecermo-nos em nossos semelhantes. E reconhecer um pouco de cada um em outros. Agora era tarde, puxei o jornal junto a mim e fechei a expressão fingindo ler, sondei em rápida análise a pessoa que agora se apossava do lugar ao meu lado, e ela despertou-me lembrança tão vívida:
-Fernando?